terça-feira, 30 de outubro de 2012

A história de uma catadora de sonhos

“Eu tenho orgulho de minha origem”, diz Rosicleide, que já trabalhou em lixão e vai se formar em Pedagogia


Por Heverthon Rocha*

Era uma tarde de sábado. O calendário marcava 16 de abril de 1977, quando, na Maternidade das Quintas, nascia Rosicleide Manço do Nascimento, filha de João Pereira do Nascimento e Maria das Graças Manço do Nascimento. Rose, como hoje é conhecida, foi a terceira filha de uma família de seis - quatro mulheres e dois homens.
Desde garotinha ela acompanhava os irmãos durante o trabalho de catação de resíduos recicláveis, em meio a urubus e porcos, no antigo lixão de Natal, no bairro de Cidade Nova. Os irmãos catavam e separavam, enquanto Rose ajudava tomando conta para que ninguém furtasse o que já havia sido juntado.
        De memória excelente, ela ainda lembra dos dias difíceis no que os catadores chamam de “forno do lixo”. Rose relata que “os caminhões chegavam e tinha aquela multidão de pessoas, cada um com seus ganchos, catando plástico, papel, vidro, alumínio e outras coisas. Cada um tinha seus canteiros, com barraquinhas de madeira e papelão, e eu ficava com meus irmãos fazendo a triagem dos materiais para vender”. 
         Durante muitos anos viveu sem oportunidades, sem garantias de um futuro melhor. Vendo-se em meio a todo o lixo domiciliar descartado e coletado na cidade do Natal e com a força e salários do trabalho do pai gari e da mãe costureira, se manteve estudando, sempre em escola pública, até concluir o segundo grau. Com o fim do lixão, em 2004, Rosicleide se viu em meio a uma dúvida que dizia respeito a seu futuro como cidadã. O que fazer a partir daquele momento? “Terminei o ensino médio e não tinha perspectiva nenhuma”, disse Rosicleide. “Meu trabalho era no lixão. Não fazia outra coisa”.
Com o fim do lixão de Cidade Nova, os catadores tiveram que ser inseridos em associações. A Prefeitura do Natal teve que realizar diversos cursos de formação para os catadores, daí veio a primeira oportunidade que Rosicleide aguardava. Sendo conhecedora nata da história e modo de vida dos catadores, foi trabalhar num projeto de alfabetização mantido pelo Instituto Paulo Freire/Mova-Brasil. “Fui convidada para alfabetizar os catadores. Fiquei preocupada no início, mas não perdi a oportunidade e aceitei. Enfrentei a timidez e meus medos e fui”, relatou, com um sorriso no rosto. Depois participou de projetos do BB Educar e da Prefeitura do Natal.
Para alfabetizar os catadores, a maioria adultos, Rosicleide utilizou como instrumento de ensino a vida dos próprios alunos. “Eu os ensinava a ler e a escrever de acordo com a realidade deles. De acordo com a realidade da coleta seletiva, do antigo lixão, da comunidade e da sociedade na qual estão inseridos. Sempre trabalhei com a pedagogia segundo Paulo Freire”, contou, com orgulho. “Na época nem sabia quem era Paulo Freire, mas já aplicava seus ensinamentos intuitivamente”.
Agora motivada, a catadora de sonhos resolveu investir na carreira de educadora e a perseguir um objetivo maior, o de ser pedagoga. Mas Rose sabia que as coisas não seriam fáceis. “Eu fiquei pensando: como vou fazer um curso superior se não tenho condições de comprar livros para estudar?”. A solução, ela encontrou na própria coleta seletiva. Rose iniciou uma incessante busca por materiais didáticos no meio de tantos resíduos que coletava diariamente. Aos poucos foi montando uma biblioteca particular com livros de língua portuguesa, matemática, história, geografia e tantos outros que possibilitaram a ela estudar para o vestibular.
Rosicleide relata que em certo momento pensou em desistir, mas teve o apoio do marido, José Paulírio, que também é catador, e de sua ex-professora Meiriane Barata. “Senti-me desmotivada, mas eles me deram muito incentivo para continuar minha luta. Sou grata aos dois por isso”, explicou, exibindo nos olhos humildade a gratidão. “Estudei e passei no vestibular. Hoje estou no sétimo período de Pedagogia e me formo no final do ano. Pretendo ir além. Não vou parar numa graduação”, comemorou.
Atuando como alfabetizadora dos catadores há mais de seis anos, Rosicleide pretende fazer especialização em meio ambiente, com ênfase na coleta seletiva, e ajudar a melhorar a vida dos demais catadores. “Quero dar a mesma oportunidade que tive aos meus companheiros de trabalho”.
Em fevereiro de 2012, Rosicleide assumiu um novo desafio, o de se tornar educadora catadora no projeto Cataforte, do Governo Federal, que tem como objetivo o fortalecimento do associativismo e cooperativismo dos catadores de materiais recicláveis, com 160 alunos matriculados. “Estar inserida neste processo é tudo para mim. Estou vivenciando coisas diferentes. Antes eu alfabetizava catadores, agora ensino aos catadores sobre economia solidária. São ensinamentos e aprendizados distintos”, comparou.
Acompanhando um desses momentos de aula de Rosicleide, percebi que existe uma relação de cumplicidade entre a educadora e os educandos. “Sinto-me realizada. Estou compartilhando com eles a minha história e também incentivando-os para que não parem de estudar. Para que procurem se desenvolver tanto como profissionais, quanto como cidadãos. Nesse processo construo com eles uma nova perspectiva de vida, como construi a minha”, diz, com os olhos marejados e escondidos atrás das lentes claras dos óculos.
Além de alfabetizar cerca de 300 catadores de materiais recicláveis, Rosicleide Manço afirma com orgulho e satisfação que foi ela quem despertou o desejo do pai, até então analfabeto, de aprender a ler. “Eu alfabetizei meu pai e minha mãe ficou motivada a frequentar o Ensino de Jovens e Adultos. Hoje ela lê e escreve poesias. Minha mãe é uma poetisa”.
Da história de vida de Rosicleide Manço do Nascimento tirei grandes ensinamentos. Principalmente, o de que nunca é tarde para buscar crescer na vida. Correr atrás do crescimento pessoal, sobretudo, dando importância ao bem estar dos outros. E sempre com orgulho do que fazemos e de quem somos. “Eu tenho orgulho de minha origem. Tenho orgulho de dizer que sou catadora de materiais recicláveis”, concluiu a catadora de sonhos.

* Heverthon Jeronimo da Rocha é graduado em Gestão Ambiental, especialista em Educação Ambiental e Direito Ambiental e graduando em Comunicação Social.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Rio+20: Um insípido fracasso de lideranças

Por Heverthon Rocha


          Confesso que a carga de campanhas publicitarias disparadas nos mais variados meios de comunicação até que me atraíram. Digo mais, quase me convenceram de que tudo sairia bem. Cheguei a pensar que a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, ou Rio+20, seria o início das soluções dos problemas ambientais que vem sendo discutidos exaustivamente desde a Rio92, que fracassou. Mas não foi.
Participei durante quatro exaustivos dias dos “Diálogos para o Desenvolvimento Sustentável”, evento oficial da Rio+20, que aconteceu no Riocentro entre os dias 16 e 19 de junho. Na plenária estavam cerca de dois mil representantes da sociedade civil, eu fui um deles. Os textos apresentados, já formatados, sem possibilidade real de mudanças, nos eram apesentados para que utopicamente escolhêssemos as prioridades. De cada tema eram apresentadas dez recomendações, das quais deveríamos votar em três. Que legal! Pensei vibrante. Era a democracia na prática. Balela. Tudo já estava decidido. Nós votávamos e não escolhíamos nada.
Temas importantes como resíduos sólidos, padrões de consumo e descarte de resíduos, educação ambiental, coleta seletiva e a própria reciclagem, temas que de minha perspectiva de gestor ambiental, representam os grandes males e respectivas soluções para os problemas da vida moderna.
O que não faltou mesmo foram propostas para criar comissões e realizar novas conferências. Num mundo onde, quem não quer resolver nada, monta comissão ou faz reunião, é um prato cheio. O Brasil que o diga, com tantas CPIs que acabam em pizza, feijoada, rabada aos banhos de cachoeira e pagas com mensalão.
A tão esperada conferência foi na verdade uma aparente oportunidade para que chefes de estado pudessem, oficialmente, se reunirem e fazerem turismo pela segura, ao menos nestes dias, Cidade Maravilhosa.
Na madrugada do dia 19, direta das redes sociais, vinham as notícias que os cabeças do evento, estavam reunidos, as 2 horas daquela madrugada fria carioca com um texto pronto. O que não havia sido feito em 20 longos anos, ficou pronto numa madrugada.
“Fracasso de lideranças” e “insípido” foram algumas das classificações apresentadas ao final da Conferência, que para mim, fracassou antes mesmo de começar. Fracassou quando não permitiu a participação mais ampla da sociedade na construção do texto base da Rio+20. Quando não possibilitou diálogos que garantissem o valor do voto da sociedade civil. O que se ouvia dos moderadores era que essa ou aquela recomendação já estava aprovada. Por quem? Quando? Como? Um mistério que ninguém viu.
Para este gestor ambiental, ambientalista convicto e que muitas vezes é rotulado de eco-chato, que vos escreve, a frase que melhor resumiu a Rio+20 foi a do vice-premiê britânico, Nick Clegg, quando disse que: “Este é um daqueles momentos únicos em uma geração, quando o mundo precisa de visão, compromisso e, acima de tudo, liderança. Tristemente, o documento atual é um fracasso de liderança”.
Bom mesmo estava lá no Aterro do Flamengo. Com os jovens cantando, os índios dançando e os povos em sua cúpula vendo tudo passar sem se dar conta que nada vai mudar. Uma multidão de pessoas que buscaram entender a história da humanidade, mensurar a sua pegada ecológica ou somente ver os belos trabalhos apresentados no Forte de Copacabana. Tudo passou e nada ficou. Talvez belas fotos. Boas lembranças. Mas e o meio ambiente? Esse deixa que vamos discutir na Rio+40.
Então foi isso que vi, ou melhor, o que não consegui ver durante a Rio+20. Se me perguntarem: Como assim? Empossar-me-ia, mesmo que temporariamente, das palavras de um sábio nordestino, nascido das ideias de Ariano Suassuna e eternizado na obra O Auto da Compadecida, o Chicó, e responderia: "Não sei, só sei que foi assim".
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terça-feira, 12 de junho de 2012

MNCR comemora conquistas de catadores cooperados em Natal


Remuneradas pela Urbana, duas cooperativas prestam serviços de coleta, transporte e destino final dos resíduos recicláveis de Natal

Por Heverthon Rocha

A coleta seletiva realizada na cidade do Natal teve um avanço significativo, desde que a Prefeitura Municipal assinou o contrato de prestação de serviços de coleta de materiais recicláveis com os catadores natalenses.
Durante muitos anos, os catadores de materiais recicláveis da cidade tiveram que conviver em meio ao descaso e à ausência de políticas públicas de inclusão social e fortalecimento do movimento. Reduzindo à R$ 174 o ganho mensal dos catadores cooperados.
Os catadores de materiais recicláveis de Natal saíram do anonimato no ano de 2004. Naquela época, uma ação do Ministério Público Estadual, por meio da Promotoria do Meio Ambiente, determinou o fim do lixão de Cidade Nova. Na ocasião, mais de 450 pessoas viviam em meio aos resíduos sólidos e rejeitos domésticos.
Com o fim do lixão, os catadores se organizaram em associações. Fortalecidos, hoje se distribuem em duas cooperativas, remuneradas pela Companhia de Serviços Urbanos de Natal (Urbana) para realizar os serviços de coleta, transporte e destino final dos resíduos recicláveis.
“Decidimos contratar os catadores por entender a sua importância para o meio ambiente. Estamos fazendo nossa parte, conforme prevê a Política Nacional de Resíduos Sólidos e esperamos que todos os municípios façam o mesmo”, disse João Bastos, presidente da Urbana.
A inserção social dos catadores foi esquecida por muitas gestões da Urbana. Diante desta problemática a gerência técnica do meio ambiente da Urbana, formulou e propôs o decreto da Coleta Seletiva Solidária em Natal, o que foi acatado pela prefeita Micarla de Sousa.
O Decreto Municipal nº 9.615/2012 foi publicado no Diário Oficial do Município do dia 03 de fevereiro deste ano e estabelece a obrigatoriedade de coleta seletiva em todos os órgãos da administração direta e indireta municipal. O decreto municipal segue o modelo adotado pelo Governo Federal (5.940/2006) com as devidas adequações às realidades locais.
Estas iniciativas tiveram início em junho de 2010, fruto de uma gestão inovadora na Urbana, onde os catadores passaram a ser visualizados com a devida importância. Neste período diversos eventos nacionais e locais possibilitaram a contratação das cooperativas para realizarem serviços profissionais aos municípios brasileiros.
Em 2010 o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou a Lei Federal nº 12.305/2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), elevando os catadores para um patamar de destaque, no que diz respeito à destinação ambientalmente correta dos resíduos sólidos recicláveis.
Para Severino Lima Júnior, representante do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) as conquistas estão se concretizando em Natal. “O presidente Lula foi muito importante para valorização do catador. Somos gratos a ele”, destacou Severino Júnior. “Nós do MNCR estamos muito satisfeitos em ver que a gestão municipal do Natal está implementando a PNRS, inclusive contratando os catadores.”
A PNRS surge como um instrumento legal que complementa a Política Nacional de Saneamento Básico (PNSB), instituída conforme a Lei Federal nº 11.445/2007. Foi a PNSB que possibilitou a contratação dos catadores para realização da coleta seletiva, cumprindo assim uma das etapas do saneamento básico que é o manejo dos resíduos sólidos urbanos.
A PNSB prevê a contratação das cooperativas com dispensa de licitação, tendo como base o estado de necessidade dos catadores e promovendo a inserção socioeconómica dos profissionais da coleta seletiva e ações de preservação do meio ambiente.

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Da Revolução Industrial ao aquecimento global

Por Heverthon Rocha

Antes da industrialização, na idade média, a vida das pessoas era bem mais simplificada, mesmo não havendo qualidade de vida, vivia-se com pouca ou nenhuma pressão externa provenientes de seus empregadores. Não havia cobranças de horários, compromissos financeiros, acadêmicos, etc. Mesmo o trabalho sendo pesado, existia tranquilidade. Investia-se muito tempo na família.

Com a valorização da família, o lazer era inevitável, a carga horária de trabalho era muito inferior a que a população é submetida nos dias de hoje. Naquela época se trabalhava algo entorno de duas a três horas por dia. Atualmente um trabalhador assalariado com carteira assinada ou não, trabalha algo entre seis e oito horas por dia.

“Durante a idade média, o trabalho era duro e rural, e adaptado ao clima, às festas e aos repousos ditados pela família e religião, onde havia inúmeros dias santos. Trabalhava-se em média de 700 a 1000 horas por ano. Nesta sociedade predominavam os valores de vida comunitária, onde adultos e crianças partilhavam de atividades comuns, onde o trabalho e o lúdico tinham o mesmo grau de importância.” (MALACRIDA & MACHADO, 2008)

Os processos de industrialização tiveram início muito remotamente. Já no período de 1760 a 1850, a industrialização, ou seja, a Primeira Revolução Industrial e era restrita a Inglaterra, então conhecida como a “oficina do mundo”. Naquela época, foi proposta a produção sistemática de bens de consumo, em especial os têxteis e a energia a vapor.

Não demorou muito, e a partir de 1860, a revolução estava presente por diversas partes da Europa, Ásia e América do Norte e continuou sua expansão até 1900. Esta fase ficou conhecida como Segunda Revolução Industrial. Dentre os países que aderiram a industrialização figuravam os Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Bélgica, Japão e Rússia. Com o avanço das revoluções industriais, cresceu então a concorrência e a necessidade de novas formas de energia, surgindo as primeiras hidroelétricas e avanços nas áreas químicas e aço. Neste mesmo período também surgiram termoelétricas, pioneiras na emissão de gases poluentes de origem antrópica, que funcionavam a base de petróleo, lançando toneladas de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera.

O que impulsionou ainda mais a industrialização do futuro, foi invenção de George Stephenson (1781-1848) que em 1814, apresentou ao público o que seria a responsável pela expansão mundial, a máquina que possibilitou levar e trazer bens de consumo e matérias primas por tudo mundo ocidental.

A construção da locomotiva facilitou a comercialização e distribuição da produção, tornando estes processos mais eficientes. Em 1825 a “Locomotion” inventada por Stephenson tracionou um conjunto completo de composição ferroviária, fazendo o percurso de 15 quilômetros entre Stockton e Darlington, na Inglaterra.
Deste período até os dias de atuais, os chamados polos industriais somam-se aos milhares espalhados por todo mundo. São indústrias locais, regionais e até multinacionais que mantêm o foco na produção e comercialização de bens de consumo.

As indústrias estão preferencialmente preocupadas com lucros e pouco com o meio ambiente. O foco é no crescimento econômico, no ganho de capital. Esta ideia de crescimento econômico foi bastante impulsionada após o domínio do homem sobre os recursos naturais, que sofreram e ainda sofrem uma redução de disponibilidade de alimentar.

Grandes áreas de terras são devastadas para alimentar o capitalismo selvagem que mantém o sistema econômico funcionando por meio de atividades industriais, fazendo e distribuindo produtos que se tornam obsoletos em pouco tempo, alguns em até seis meses.

Esta obsolescência dos produtos aumenta a quantidade de resíduos descartados no meio ambiente e reduz a vida útil de aterros controlados ou sanitários, ao passo que pode aumentar a quantidade de lixões. Também exigem mais extração de matérias primas, causando mais desmatamento de florestas, destruição de montanhas para extração de minérios e consequentemente a poluição do ar, solo, mares, rios e lagos.

Atualmente, a produção encontra-se, quase em sua totalidade, automatizada. A partir do ano 1900, surgiram os processos de produção em série, iniciando uma verdadeira e danosa explosão de consumo em massa.

Este consumismo exagerado contou com uma grande aliada, a comunicação. Foi um período de grandes avanços nas comunicações, o que facilitou a divulgação de produtos e aumentou ainda mais o público consumidor.

A partir deste ponto, a industrialização agregou novos conhecimentos e tecnologias, avançando nas áreas da eletrônica, química, engenharia genética e a robótica. É importante lembrar que o marco inicial deste processo de desenvolvimento capitalista, deu-se juntamente com a revolução industrial, deixando de lado os processos de produção artesanal, menos agressivos ao meio ambiente e menos lucrativos do ponto de vista econômico da época.

Quem teve a oportunidade de ver o clássico filme “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin, percebe que a industrialização acelerou os processos de produção a níveis quase frenéticos. As pessoas – operários – tornaram-se partes fundamentais deste processo sistemático de produção.

A qualidade de vida está comprometida pela rotina estressante e pouco remunerada. O lazer já não fazia mais parte da vida dos operários que se sacrificam nas fábricas. O que ganhavam sequer dava para sustentar suas famílias. O que realmente alimentavam era o sistema de produção, venda e compra dos bens de consumo.

As doenças mais frequentes estavam relacionadas aos esforços repetitivos e ao trabalho em uma única etapa da produção. Ou seja, cada operário era responsável por um único processo na linha de montagem. Esta doença foi diagnosticada décadas depois como “LER” (Lesão por Esforço Repetitivo).

A competitividade por uma vaga de trabalho só aumentou com a Revolução Industrial, e os operários se submetiam a baixos salários. Aqueles que não conseguiam emprego – maioria da população – passavam fome, sobreviviam e roubavam pelas ruas em meio a uma burguesia constituída por poucos cidadãos.

Diante deste cenário, surgiram os movimentos sindicais, que cobravam melhores condições de trabalho e salários mais justos. Pelas ruas os usuários de drogas tornavam-se o retrato da dor e da miséria. As cadeias lotadas indicavam o aumento da criminalidade. Nas celas, sindicalistas eram colocados juntamente com traficantes e assassinos. Os problemas sociais eram latentes e incomodavam os pioneiros das lutas sociais.

Antes dos processos de produção em série, ou da Revolução Industrial, a população vivia da energia e dos produtos ofertados pela própria natureza. Caçavam somente o que consumiam com suas famílias, sem armazenamento. Colhiam o que plantavam em pequena escala, e não promoviam grandes impactos ao meio ambiente.

Com a industrialização e a produção em série, os impactos provocados na natureza ganharam grandes proporções. A emissão de gases do efeito estufa (GEEs) foi acelerada com a exploração de combustíveis fosseis e com o crescente desmatamento para produção agrícola e implantação de novas indústrias.

O planeta passou a não mais suportar as frequentes agressões e a exploração descontrolada dos recursos naturais. A derrubada de florestas acelerou o aquecimento global, pois representam um fundamental papel no ciclo de renovação do oxigênio da atmosfera, expondo ao risco bilhões de pessoas por todo o mundo.

Os seres humanos hoje vivem numa sociedade capitalista. Adotaram o consumismo como meta de status social. No momento de comprar, a população não leva em consideração o ciclo de vida do produto, o quanto de matéria prima foi utilizada, nem tão pouco sua origem e se os custos humanos e ambientais foram inseridos na cadeia produtiva.

É urgente que medidas sejam adotadas para frear o consumismo. Uma saída é trabalhar a sensibilidade e consciência da população por meio da educação ambiental. O cidadão deve ser orientado a respeito dos processos de produção, distribuição e consumo. Talvez ainda seja tarde demais para reverter a situação. É possível que ainda haja tempo para salvar as futuras gerações do egoísmo de seus antecessores.


sexta-feira, 27 de maio de 2011

A percepção do meio ambiente nos dias atuais

Por Heverthon Rocha

Correria do dia a dia tira nossa percepção do mundo
Os seres humanos, de forma mecânica, começam o dia e não dão conta das belezas naturais que estão ao seu redor. A caminho de suas rotinas diárias, ao volante, no ônibus, no avião ou a pé, não percebem a natureza a sua volta. Já não enxergam mais aquela árvore frondosa no canteiro central da avenida mais movimentada de cidade, seja ela qual for, e qualquer tamanho, pequena, média ou grande.

A população da Terra cresce em números assustadores, já são quase sete bilhões de pessoas. “Antes do século 20, nenhum ser humano tinha vivido o suficiente para testemunhar uma duplicação da população mundial, mas hoje há pessoas que a viram triplicar. Em algum momento no fim de 2011, segundo a Divisão de População das Nações Unidas, seremos 7 bilhões de pessoas”. (KUNZIG, 2011)

Esta explosão demográfica aumenta as necessidades de consumo, e o inevitável consumo desnecessário. O resultado é que vivemos num ritmo frenético, onde as contas a pagar pedem mais horas de trabalho, e a necessidade de bons empregos requer mais horas de sala de aula. Esta loucura diária tira o tempo que antes se tinha para a família, lazer e apreciação do meio ambiente. O homem foi reduzido a um risco ambiental, ou seja, um risco para o próprio homem.

Mas afinal, o que é o meio ambiente? A Política Nacional de Meio Ambiente, instituída pela Lei Federal nº 6.938/81 define meio ambiente como “o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga ou rege a vida em todas as suas formas”, o que de modo simplificado pode-se conceituar como tudo aquilo que está a nossa volta, inclusive nós mesmos. Entretanto, o meio ambiente é muito mais que isso.

O meio ambiente é composto por tudo que é indispensável à vida na terra, ou seja, tudo aquilo que é utilizado para sua própria sustentação. Estão incluídos neste tudo as condições do ar, solo, recursos hídricos, nutrientes e todos os organismos vivos existentes.

É comum achar que o meio ambiente é composto pelos componentes básicos de ordem “física, química e biológica”, mas na verdade é composto também pelo “meio sociocultural e sua relação com os modelos de desenvolvimento adotados pelo homem”. (PIZZATTO & PIZZATTO, 2009)

Um grande prestador de serviços. É assim que pode se visualizar o meio ambiente. O seres humanos são usuários não pagantes dos serviços ambientais disponíveis em grandes, pequenas, finitas ou em infinitas quantidades. Enquanto grandes metrópolis e seus habitantes de maior poder aquisitivo são privilegiadas com a exploração essesiva dos recursos naturais, comunidades rurais, ou até mesmo urbanas de baixa ou nenhuma renda, sofrem com a escarcez de recursos vitais como a água ou acesso a energia elétrica.

Para Markus Brose, agrônomo, especialista em agroecologia e doutor em sociologia política pela Universidade de Osnabrück – Alemanha, existem um problema cultural, “em nossa sociedade, existe uma tendência de que grupos vulneráveis sofram com os maiores custos ambientais e usufruam menos dos benefícios do crescimento econômico”. Tal comentário é baseado na existência das industrias em grandes áreas metropolitanas, aumentando os riscos ambientais de fácil deslocamento regional e de impacto difuso.

Ao se deparar com a ausência dos serviços ambientais, instala-se o pânico. O meio ambiente atualmente vive uma crise que está estampada em jornais, revistas, televisão e quase todos os meios de comunicação.

Estamos na era das mudanças climáticas e do acelerado e descontrolado aquecimento global. A
“Carta da Terra”, declaração com apontamento para os princípios éticos da construção de uma sociedade com justiça social, sustentabilidade e paz, trás em seu texto que “estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro”, para os céticos, uma apologia ao pânico. Para os ambientalistas, ecologistas e demais defensores do meio ambiente um apelo para práticas conscientes de preservação ambiental.

Esta preservação tem como aliada a percepção ambiental. Um processo no qual o indivíduo constitui imagens mentais, julgamentos, expectativas e condutas para estabelecer uma melhor compreensão do meio ambiente e das inter-relações com os demais seres vivos. A percepção ambiental é aguçada com a prática da educação ambiental.

O estudo e a prática da educação ambiental possibilita que todos possam ter uma visão holística do meio ambiente, fazendo-o entender todos os processos sinérgicos existentes entre homem e natureza para construção do meio ambiente.

Na educação ambiental utilizamos a percepção ambiental como uma ferramenta que auxilia e possibilita aos seres humanos perceber o meio ambiente, natural ou antrópico, facilitando assim a conscientização ou sensibilização para construção do cidadão ecologicamente correto, responsável e ator fundamental no fortalecimento dos pilares da sustentabilidade.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

As vertentes contemporâneas da educação ambiental

Por Heverthon Rocha

Educação ambiental comportamental é voltada para crianças
A educação ambiental está em acelerado processo de institucionalização por todo o mundo, no Brasil, somente em 1999 é que se instituiu uma lei específica. Percebemos que ela vem ganhando notoriedade e a adesão de inúmeros setores da sociedade. Mas também entendemos que não existem formas específicas de aplicação da educação ambiental, ou seja, uma receita padrão, uma fórmula mágica ou de sucesso absoluto que não apresente falhas. Existe sim uma carência de desenvolvimento de um método uniforme para a aplicação da educação ambiental forma prática e eficaz, respeitando suas variabilidades de vertentes.

Em uma cidade como Natal, por exemplo, onde a educação ambiental é uma realidade – mesmo que tímida – parece que os cidadãos não a percebem, e sempre que podem, cobram dos gestores públicos ações voltadas para conscientização e sensibilização no que diz respeito a preservação do meio ambiente, do uso racional dos recursos naturais e esclarecimento das necessidades e benefícios do saneamento básico.

No entanto, percebemos também que a mesma população que cobra, é a que não pratica a educação ambiental. Esta parcela da população acredita que o fato de cobrar já é o suficiente, cabendo ao poder público fazer o resto. Entretanto, não é assim que a participação popular funciona. A responsabilidade popular vai muito além.

A Constituição Federal em seu já conhecido e tão mencionado Artigo 225, que trata e estabelece o direito ao meio ambiente como sendo de todos, explica as competências de cada um na preservação do meio ambiente, “impondo-se ao poder público e a coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.

O Dicionário Aurélio traz a seguinte definição para coletividade: “Grupo ou agrupamento de pessoas relativamente organizado para um fim. A totalidade dos indivíduos de determinada área ou região, em um dado tempo, se considerados como um todo”. Partindo desta definição podemos entender que na verdade existe uma responsabilidade compartilhada, onde todos são agentes de preservação do meio ambiente, e consequentemente pela promoção da educação ambiental.

Além disso, a Lei Federal nº 9.795/99 diz que educação ambiental são os processos “por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente”. Sendo que a sociedade incumbe-se “manter atenção permanente à formação de valores [...] e a solução de problemas ambientais”.

Para realização da educação ambiental, existem na prática, três linhas predominantes de orientação. São elas a conservacionista, a comportamental e a socioambiental. Cada uma com uma característica exclusiva, mas que representou ou representa um importante avança na proteção e conservação dos ecossistemas, partindo de uma visão conservacionista.

O conservacionismo defende que o meio ambiente é tão somente o natural, ou seja, tudo aquilo que nasce de forma espontânea, sem a interferência do homem. Esta vertente tem uma concepção naturalista, ou seja, não considera que os seres humanos façam parte do meio ambiente e busca tão somente a conservação do natural.

Para Ana Rosa Salvalagio, assistente social graduada pela Unioeste (Paraná) e participante do Programa de Formação de Educadores Ambientais (FEA-MA) “Faz-se necessário tratar da transição da educação conservacionista para a educação ambiental, sendo que na educação conservacionista o foco é no ambiente não humano e na Educação ambiental há a articulação entre o mundo natural e o social”.

Esta abordagem naturalista é ainda muito forte nos países de primeiro mundo, ou desenvolvidos, tais como Estados Unidos, Austrália, Canadá e países da Europa. Para os que são adeptos do conservacionismo, o meio ambiente é meramente um sinônimo de natureza, sendo o homem um ser a parte, que faz oposição ao meio natural.

Entre conscientizar e sensibilizar está a vertente comportamental da educação ambiental. Segundo o Dicionário Aurélio, a primeira significa “dar ou tomar consciência”, ou seja, “a capacidade de conhecer e julgar sua própria realidade; senso de responsabilidade”, e a segunda visa “tornar sensível, comover”, estimulando a “capacidade de sentir”.

Com base na sensibilização se ampara a abordagem comportamental, que prioriza as ações de educação ambiental voltadas para as crianças, que encontram-se em processo de formação cognitiva, mais suscetíveis ao recebimento, processamento e fixação do saber ambiental.

Para a psicóloga e doutora em educação, Isabel Cristina de Moura Carvalho, “supõe-se que nelas [nas crianças] a consciência ambiental pode ser internalizada e traduzida em comportamentos de forma mais bem sucedidas do que nos adultos”.

A educação ambiental com vertente comportamental também está inserida na socioambiental, pois leva em consideração a relações entre homem e natureza, por isso ela representa o ponto de transição entre o conservacionismo e o socioambiental.

A vertente socioambiental é aquela que defende o caráter perene da educação ambiental, transpondo as barreiras do agora, do imediatismo e levando o conhecimento pelo tempo até as gerações futuras. É a vertente contemporânea que vem ganhando mais espaço, pois insere o homem no meio ambiente, considerando-o como parte do todo. Esta abordagem leva em consideração as inter-relações existentes entre o homem e a natureza, entendendo que todos estão inseridos no meio ambiente, partindo do entendimento de que o homem tem a capacidade de construir e transformar o ambiente.

Na prática da educação ambiental sob a ótica socioambiental são priorizados os aspectos sociais, culturais, políticos e econômicos, com objetivos voltados ao desenvolvimento sustentável e a formação de uma educação ambiental crítica e construtiva.

É certo que hoje os seres humanos se sentem inseridos no meio ambiente como um componente que pode representar um impacto positivo ou negativo. Um ser que com capacidade de interação, possibilitando a troca constante de energias, nutrientes, experiências, etc, quer seja construindo, destruindo ou modificando os ambientes.

Nesta luta sem fim por um mundo sustentável, deve-se abraçar a educação ambiental como instrumento transformador dos hábitos humanos. É fundamental entender que o coletivo é significante para proteção do meio ambiente, mas que as ações individuais são importantíssimas para o sucesso da coletividade. Cada cidadão é o fiscal de suas próprias ações, é o seu educador ambiental pessoal.