segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

No sertão do Seridó também se catam sonhos

Catadores da região do Seridó estão otimistas com o futuro do trabalho de coleta seletiva com ações iniciadas em Caicó e Parelhas.

Por Heverthon Rocha
No sertão do Seridó, famílias inteiras vivem exclusivamente dos resíduos sólidos urbanos que são depositados nos lixões. São os catadores de materiais recicláveis que constituem a base produtiva da cadeia de reciclagem do Brasil. Nas cidades de Caicó e Parelhas, onde estão os dois maiores lixões da região, nestes lixões, encontram-se 37 catadores organizados que de lá tiram seus sustentos, alimentam suas famílias e suprem suas necessidades mais básicas catando os que para muitos é mero lixo inservível.
Além dos catadores organizados, outras duas dezenas de catadores avulsos – que não estão em cooperativas ou associações de catadores – dividem o mesmo espaço, coletando vidros, papeis, metais e plásticos. O trabalho não é fácil. A catação e a triagem acontecem do nascer até o por do sol, a movimentação é frenética em busca dos melhores resíduos para oferecer aos seus clientes. São dezenas de idas e vindas, carregando sacos pesados nas costas. Chega a lembrar uma pequena fazenda de formigas.
Clécio Carvalho, jovem de 29 anos, natural de Carolina, cidadezinha no interior do estado do Maranhão, distante 874 quilômetros da São Luís. Aos 15 anos de idade chegou às terras potiguares para residir em Parelhas. Aos 18 anos começou sua jornada de trabalho no lixão da cidade, de onde não mais saiu.

Mesmo no lixão, catadores estão otimistas com o fortalecimento da coleta seletiva (Foto: Heverthon Rocha)
“Tenho orgulho de ser catador de materiais recicláveis. É daqui que tiro o meu sustento e alimento minha família”, disse Clécio com orgulho do trabalho que desempenha. Com a renda de média de R$ 600 que recebe mensalmente, sustenta dois filhos, sendo que um destes foi adotado por ele. “As coisas já foram mais difíceis, mas estão muito melhores agora com a ajuda de alguns parceiros.” Lembra o catador.
Para melhorar ainda mais as condições de vida dos catadores, instituições como a Fundação Banco do Brasil (FBB) e o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) aliaram forças e estão realizando no Rio Grande do Norte o curso de formação para logística solidária Cataforte II.
Caicoense de nascimento e catador no lixão de Caicó há mais de 16 anos, Alcides Belarmino, 46 anos, ex-servente de pedreiro, acredita que as atividades de catador tiveram um grande avanço nos últimos dois anos. “De uns anos para cá estamos tendo grandes conquistas. Contamos atualmente com o apoio de grupos religiosos e instituições nacionais que nos ajudam.” Destacou Alcides, que vive numa humilde residência na comunidade Frei Damião, as margens da RN 228.
Atualmente Alcides Belarmino é secretário geral da Associação de Catadores de Materiais Recicláveis de Caicó, instituição fundada por ele e outros 21 catadores com o objetivo de se fortalecer e cobrar mais ações do poder público local. “Nossa organização começou com 11 pessoas, agora temos mais de vinte. Estamos felizes com tudo que já conquistamos.” Lembrou Alcides. “Recentemente passamos por diversos cursos de formação. Aprendemos sobre economia e logística solidária e estamos participando da construção da Rede Potiguar de Catadores”. Completou.
Tanto o Alcides quanto o Clécio são duas fortes lideranças do seguimento na região do Seridó. Ambos estão estudando e buscando melhores condições de vida para os outros catadores de materiais recicláveis da região.
Os catadores organizados em cooperativas e associações ainda são poucos. Mas com os cursos de formação realizados em parceria com a FBB e MNCR tem despertado o interesse dos catadores informais em integrar estes grupos. Segundo a mercadóloga Alexandra Rocha, que atuou como educadora nos projetos Cataforte I e II da FBB e MNCR, “o crescimento dos catadores só depende do quanto eles estão dispostos a unir-se”. Segundo ela, “esta união é importante para o empoderamento dos grupos, viabilizando ações de construção de políticas públicas e tomadas de decisões que os favoreçam”.

Para fugir da invisibilidade social, catadores passam por curso de formação em Caicó. (Foto: Heverthon Rocha)
Empoderar-se significa tomar por meio de ações coletivas desenvolvidas pelos indivíduos, por meio de participação em espaços privilegiados de decisões, ou de consciência social em busca de direitos, possibilitando a aquisição de uma emancipação individual, superando as dependências sociais e a dominação política.
Diante deste empoderamento adquirido em sala de aula e praticado no dia-a-dia, os catadores do sertão do Seridó estão colhendo, ou melhor, catando sonhos que são construídos com bases sólidas e com propósito nobres para o fortalecimento das cooperativas e associações de catadores que venham a surgir a partir desta luta.
Estes empreendimentos de economia solidária (EES) são a base de toda a cadeia de gestão de resíduos sólidos no Brasil e vem alimentando as indústrias da reciclagem há várias décadas. Infelizmente os catadores são historicamente explorados por atravessadores que têm a mão de obra especializada do catador uma rica fonte de renda.
“Com as formações constantes, nós, catadores de materiais recicláveis do Rio Grande do Norte, estamos aprendendo e colocando em prática nossa expertise em processar resíduos sólidos urbanos, quer sejam nos lixões, ou em coleta seletiva oficial, apoiada pelos municípios.” Finalizou Clécio Carvalho.

“Eu sou catador de materiais recicláveis”

Filho da terra potiguar, Severino Júnior ganha o mundo divulgando o trabalho dos catadores de materiais recicláveis.


Severino Júnior representa a mudança para os catadores de materiais recicláveis do RN (Foto: Heverthon Rocha)

Por Heverthon Rocha
A gestão dos resíduos sólidos no Brasil não é um processo novo, mas nos últimos dez anos esta atividade vem crescendo do ponto de vista ambiental, econômico e principal social com a inclusão dos catadores de materiais recicláveis nas ações de coleta seletiva que devem ser implementadas nos municípios.
Em 2007 foi publicada a Lei Federal nº 11.445 que estabeleceu as diretrizes para o saneamento básico, além de alterar outras leis com esse propósito. Uma destas alterações foi no artigo 24 da Lei Federal nº 8.666, conhecida como “Lei das Licitações”. Esta alteração dispensou de licitação e favoreceu a contratação para coleta, processamento e destinação final dos resíduos sólidos urbanos recicláveis ou reutilizáveis por associações ou cooperativas de catadores.
Para fortalecer a Política Nacional de Saneamento Básico (PNSB), no ano de 2010 foi publicada a Lei Federal nº 12.305, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), nela os catadores são citados em diversas oportunidades, destacando-se o artigo 36, nos parágrafos 1º e 2º, que reafirma a dispensa de licitação para contratação das associações e cooperativas de catadores, o texto da lei também diz que o titular dos serviços de limpeza “priorizará a organização e o funcionamento de cooperativas [...] de catadores de materiais reutilizáveis e recicláveis formadas por pessoas físicas de baixa renda, bem como sua contratação”.
Diante deste cenário favorável aos catadores, surgem lideranças nacionais de luta em defesa dos catadores. A organização maior de representatividade da categoria é o Movimento Nacional dos Catadores Materiais Recicláveis (MNCR), que vem atuando há mais de dez anos, sendo fundado desde os primeiros debates sobre a criação da PNSB e PNRS.
Integram este movimento catadores articuladores de diversas partes do Brasil. O representante potiguar da categoria no MNCR é o Severino Francisco de Lima Júnior, 39 anos, filho de Dona Maria e Seu Severino. Nascido pequenino na cidade do Natal, o penúltimo filho de uma família de cinco irmãos, com duas mulheres. De família humilde e sem posses, aos doze anos de idade se viu diante da necessidade de trabalhar para ajudar o pai e a mãe a sustentar os irmãos.
Desde criança o lixão foi seu ambiente de trabalho, era deste ambiente hostil e insalubre que Severino tirava o seu sustento, inicialmente vendendo din-din – também conhecido como sacolé, chupa-chupa, big-bem, geladinho, chup-chup, juju, gelinho, laranjinha, suquinho, ou conforme a região do Brasil – uma bebida refrescante congelada em saquinho.
Aos poucos, Severino percebeu que poderia ganhar mais dinheiro catando resíduos, o que o levou posteriormente a ingressar na vida de catador de materiais recicláveis, começou catando papelão, papel, garrafas e latas. A vida no lixão não era fácil, além dos problemas com insalubridade e periculosidade, também tinha que conviver com a violência e a luta constante para não ser tragado pelo obscuro mundo das drogas.
Ao completar 18 anos, o agora adolescente Severino Júnior, saiu do lixão e se apresentou as Forças Armadas, serviu por três anos na Aeronáutica. Com o fim do serviço militar, Severino resolveu atuar no mercado formal em Natal, insatisfeito com os salários praticados e com a incompatibilidade laboral, volta seis meses depois para trabalhar no lixão de Cidade Nova.
E deste universo, que para muitos é somente lixo, Severino construiu sua vida profissional e familiar. Casou-se com Andréa Duarte Penha, e posteriormente foram abençoados com o nascimento dos filhos Gabriel e Gabrielle, que para ele “é a fonte maior de incentivo, inspiração e energia” para mantê-lo nesta batalha em busca da superação de dificuldades que os catadores enfrentam todos os dias.
No ano de 1999, fundou uma associação de catadores em Natal e passou a integrar, com o apoio do UNICEF, o ainda jovem MNCR, fortalecendo o movimento que apoia as bases da cadeia da reciclagem no Brasil. Militante permanente em busca de melhores condições de vida para os catadores, Severino Júnior roda o mundo apresentando os avanços e os desafios da atividade produtiva dos grupos de catadores do Brasil, além disso, ele tem a missão de “buscar novos parceiros que acreditem e que respeitem o profissionalismo dos catadores de materiais recicláveis”.
Para fortalecer o MNCR, Severino Prestou vestibular e atualmente cursa o segundo período da graduação executiva em administração. O que pode contribuir muito para o desempenho de sua função de articulador nacional.
O catador potiguar também é fundador e representante da Red Latinoamericana y del Caribe de Recicladores (Red LACRE) e a representa no comitê gestor de projetos, juntamente com a Fundación Avina (Suíça) e Bill & Melinda Gates Foundation (Estados Unidos).
 Essa história de lutas e muitas vitórias renderam a Severino Júnior, inúmeros reconhecimentos públicos de instituições nacionais e internacionais. Severino se alegra por seus mais de 23 anos dedicados a coleta seletiva, para ele é uma grande satisfação “promover a preservação do meio ambiente e o fortalecimento dos grupos catadores de materiais recicláveis”.
Dentre as principais conquistas de Severino, destacam-se a aprovação das políticas nacionais de Saneamento Básico (PNSB) e Resíduos Sólidos (PNRS); a implementação da coleta seletiva na cidade de Natal; contratação das cooperativas de Natal com remuneração por serviços prestados em coleta seletiva.
 Severino é um catador que rompeu os limites do território potiguar e ganhou o mundo, teve participação nas reuniões da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, COP15 e 16, além de ter participado das reuniões de cúpula durante a Rio+20 e também nas reuniões preparativas na cidade alemã de Bonn. Severino tem assento como titular no Grupo Técnico de Trabalho de Embalagens do Ministério do Meio Ambiente, que busca estabelecer acordo setorial para destinação adequada das embalagens por meio da logística reversa.
A mais recente luta do potiguar incansável é a aprovação da PEC 309, a “PEC dos Catadores”, que prevê a inclusão da categoria como segurados especiais da Previdência Social.
Severino percorre o mundo levando na bagagem o conhecimento que a vida lhe deu e no peito o orgulho de ser um catador de materiais recicláveis.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A história de uma catadora de sonhos

“Eu tenho orgulho de minha origem”, diz Rosicleide, que já trabalhou em lixão e vai se formar em Pedagogia


Por Heverthon Rocha*

Era uma tarde de sábado. O calendário marcava 16 de abril de 1977, quando, na Maternidade das Quintas, nascia Rosicleide Manço do Nascimento, filha de João Pereira do Nascimento e Maria das Graças Manço do Nascimento. Rose, como hoje é conhecida, foi a terceira filha de uma família de seis - quatro mulheres e dois homens.
Desde garotinha ela acompanhava os irmãos durante o trabalho de catação de resíduos recicláveis, em meio a urubus e porcos, no antigo lixão de Natal, no bairro de Cidade Nova. Os irmãos catavam e separavam, enquanto Rose ajudava tomando conta para que ninguém furtasse o que já havia sido juntado.
        De memória excelente, ela ainda lembra dos dias difíceis no que os catadores chamam de “forno do lixo”. Rose relata que “os caminhões chegavam e tinha aquela multidão de pessoas, cada um com seus ganchos, catando plástico, papel, vidro, alumínio e outras coisas. Cada um tinha seus canteiros, com barraquinhas de madeira e papelão, e eu ficava com meus irmãos fazendo a triagem dos materiais para vender”. 
         Durante muitos anos viveu sem oportunidades, sem garantias de um futuro melhor. Vendo-se em meio a todo o lixo domiciliar descartado e coletado na cidade do Natal e com a força e salários do trabalho do pai gari e da mãe costureira, se manteve estudando, sempre em escola pública, até concluir o segundo grau. Com o fim do lixão, em 2004, Rosicleide se viu em meio a uma dúvida que dizia respeito a seu futuro como cidadã. O que fazer a partir daquele momento? “Terminei o ensino médio e não tinha perspectiva nenhuma”, disse Rosicleide. “Meu trabalho era no lixão. Não fazia outra coisa”.
Com o fim do lixão de Cidade Nova, os catadores tiveram que ser inseridos em associações. A Prefeitura do Natal teve que realizar diversos cursos de formação para os catadores, daí veio a primeira oportunidade que Rosicleide aguardava. Sendo conhecedora nata da história e modo de vida dos catadores, foi trabalhar num projeto de alfabetização mantido pelo Instituto Paulo Freire/Mova-Brasil. “Fui convidada para alfabetizar os catadores. Fiquei preocupada no início, mas não perdi a oportunidade e aceitei. Enfrentei a timidez e meus medos e fui”, relatou, com um sorriso no rosto. Depois participou de projetos do BB Educar e da Prefeitura do Natal.
Para alfabetizar os catadores, a maioria adultos, Rosicleide utilizou como instrumento de ensino a vida dos próprios alunos. “Eu os ensinava a ler e a escrever de acordo com a realidade deles. De acordo com a realidade da coleta seletiva, do antigo lixão, da comunidade e da sociedade na qual estão inseridos. Sempre trabalhei com a pedagogia segundo Paulo Freire”, contou, com orgulho. “Na época nem sabia quem era Paulo Freire, mas já aplicava seus ensinamentos intuitivamente”.
Agora motivada, a catadora de sonhos resolveu investir na carreira de educadora e a perseguir um objetivo maior, o de ser pedagoga. Mas Rose sabia que as coisas não seriam fáceis. “Eu fiquei pensando: como vou fazer um curso superior se não tenho condições de comprar livros para estudar?”. A solução, ela encontrou na própria coleta seletiva. Rose iniciou uma incessante busca por materiais didáticos no meio de tantos resíduos que coletava diariamente. Aos poucos foi montando uma biblioteca particular com livros de língua portuguesa, matemática, história, geografia e tantos outros que possibilitaram a ela estudar para o vestibular.
Rosicleide relata que em certo momento pensou em desistir, mas teve o apoio do marido, José Paulírio, que também é catador, e de sua ex-professora Meiriane Barata. “Senti-me desmotivada, mas eles me deram muito incentivo para continuar minha luta. Sou grata aos dois por isso”, explicou, exibindo nos olhos humildade a gratidão. “Estudei e passei no vestibular. Hoje estou no sétimo período de Pedagogia e me formo no final do ano. Pretendo ir além. Não vou parar numa graduação”, comemorou.
Atuando como alfabetizadora dos catadores há mais de seis anos, Rosicleide pretende fazer especialização em meio ambiente, com ênfase na coleta seletiva, e ajudar a melhorar a vida dos demais catadores. “Quero dar a mesma oportunidade que tive aos meus companheiros de trabalho”.
Em fevereiro de 2012, Rosicleide assumiu um novo desafio, o de se tornar educadora catadora no projeto Cataforte, do Governo Federal, que tem como objetivo o fortalecimento do associativismo e cooperativismo dos catadores de materiais recicláveis, com 160 alunos matriculados. “Estar inserida neste processo é tudo para mim. Estou vivenciando coisas diferentes. Antes eu alfabetizava catadores, agora ensino aos catadores sobre economia solidária. São ensinamentos e aprendizados distintos”, comparou.
Acompanhando um desses momentos de aula de Rosicleide, percebi que existe uma relação de cumplicidade entre a educadora e os educandos. “Sinto-me realizada. Estou compartilhando com eles a minha história e também incentivando-os para que não parem de estudar. Para que procurem se desenvolver tanto como profissionais, quanto como cidadãos. Nesse processo construo com eles uma nova perspectiva de vida, como construi a minha”, diz, com os olhos marejados e escondidos atrás das lentes claras dos óculos.
Além de alfabetizar cerca de 300 catadores de materiais recicláveis, Rosicleide Manço afirma com orgulho e satisfação que foi ela quem despertou o desejo do pai, até então analfabeto, de aprender a ler. “Eu alfabetizei meu pai e minha mãe ficou motivada a frequentar o Ensino de Jovens e Adultos. Hoje ela lê e escreve poesias. Minha mãe é uma poetisa”.
Da história de vida de Rosicleide Manço do Nascimento tirei grandes ensinamentos. Principalmente, o de que nunca é tarde para buscar crescer na vida. Correr atrás do crescimento pessoal, sobretudo, dando importância ao bem estar dos outros. E sempre com orgulho do que fazemos e de quem somos. “Eu tenho orgulho de minha origem. Tenho orgulho de dizer que sou catadora de materiais recicláveis”, concluiu a catadora de sonhos.

* Heverthon Jeronimo da Rocha é graduado em Gestão Ambiental, especialista em Educação Ambiental e Direito Ambiental e graduando em Comunicação Social.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Rio+20: Um insípido fracasso de lideranças

Por Heverthon Rocha


          Confesso que a carga de campanhas publicitarias disparadas nos mais variados meios de comunicação até que me atraíram. Digo mais, quase me convenceram de que tudo sairia bem. Cheguei a pensar que a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, ou Rio+20, seria o início das soluções dos problemas ambientais que vem sendo discutidos exaustivamente desde a Rio92, que fracassou. Mas não foi.
Participei durante quatro exaustivos dias dos “Diálogos para o Desenvolvimento Sustentável”, evento oficial da Rio+20, que aconteceu no Riocentro entre os dias 16 e 19 de junho. Na plenária estavam cerca de dois mil representantes da sociedade civil, eu fui um deles. Os textos apresentados, já formatados, sem possibilidade real de mudanças, nos eram apesentados para que utopicamente escolhêssemos as prioridades. De cada tema eram apresentadas dez recomendações, das quais deveríamos votar em três. Que legal! Pensei vibrante. Era a democracia na prática. Balela. Tudo já estava decidido. Nós votávamos e não escolhíamos nada.
Temas importantes como resíduos sólidos, padrões de consumo e descarte de resíduos, educação ambiental, coleta seletiva e a própria reciclagem, temas que de minha perspectiva de gestor ambiental, representam os grandes males e respectivas soluções para os problemas da vida moderna.
O que não faltou mesmo foram propostas para criar comissões e realizar novas conferências. Num mundo onde, quem não quer resolver nada, monta comissão ou faz reunião, é um prato cheio. O Brasil que o diga, com tantas CPIs que acabam em pizza, feijoada, rabada aos banhos de cachoeira e pagas com mensalão.
A tão esperada conferência foi na verdade uma aparente oportunidade para que chefes de estado pudessem, oficialmente, se reunirem e fazerem turismo pela segura, ao menos nestes dias, Cidade Maravilhosa.
Na madrugada do dia 19, direta das redes sociais, vinham as notícias que os cabeças do evento, estavam reunidos, as 2 horas daquela madrugada fria carioca com um texto pronto. O que não havia sido feito em 20 longos anos, ficou pronto numa madrugada.
“Fracasso de lideranças” e “insípido” foram algumas das classificações apresentadas ao final da Conferência, que para mim, fracassou antes mesmo de começar. Fracassou quando não permitiu a participação mais ampla da sociedade na construção do texto base da Rio+20. Quando não possibilitou diálogos que garantissem o valor do voto da sociedade civil. O que se ouvia dos moderadores era que essa ou aquela recomendação já estava aprovada. Por quem? Quando? Como? Um mistério que ninguém viu.
Para este gestor ambiental, ambientalista convicto e que muitas vezes é rotulado de eco-chato, que vos escreve, a frase que melhor resumiu a Rio+20 foi a do vice-premiê britânico, Nick Clegg, quando disse que: “Este é um daqueles momentos únicos em uma geração, quando o mundo precisa de visão, compromisso e, acima de tudo, liderança. Tristemente, o documento atual é um fracasso de liderança”.
Bom mesmo estava lá no Aterro do Flamengo. Com os jovens cantando, os índios dançando e os povos em sua cúpula vendo tudo passar sem se dar conta que nada vai mudar. Uma multidão de pessoas que buscaram entender a história da humanidade, mensurar a sua pegada ecológica ou somente ver os belos trabalhos apresentados no Forte de Copacabana. Tudo passou e nada ficou. Talvez belas fotos. Boas lembranças. Mas e o meio ambiente? Esse deixa que vamos discutir na Rio+40.
Então foi isso que vi, ou melhor, o que não consegui ver durante a Rio+20. Se me perguntarem: Como assim? Empossar-me-ia, mesmo que temporariamente, das palavras de um sábio nordestino, nascido das ideias de Ariano Suassuna e eternizado na obra O Auto da Compadecida, o Chicó, e responderia: "Não sei, só sei que foi assim".
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terça-feira, 12 de junho de 2012

MNCR comemora conquistas de catadores cooperados em Natal


Remuneradas pela Urbana, duas cooperativas prestam serviços de coleta, transporte e destino final dos resíduos recicláveis de Natal

Por Heverthon Rocha

A coleta seletiva realizada na cidade do Natal teve um avanço significativo, desde que a Prefeitura Municipal assinou o contrato de prestação de serviços de coleta de materiais recicláveis com os catadores natalenses.
Durante muitos anos, os catadores de materiais recicláveis da cidade tiveram que conviver em meio ao descaso e à ausência de políticas públicas de inclusão social e fortalecimento do movimento. Reduzindo à R$ 174 o ganho mensal dos catadores cooperados.
Os catadores de materiais recicláveis de Natal saíram do anonimato no ano de 2004. Naquela época, uma ação do Ministério Público Estadual, por meio da Promotoria do Meio Ambiente, determinou o fim do lixão de Cidade Nova. Na ocasião, mais de 450 pessoas viviam em meio aos resíduos sólidos e rejeitos domésticos.
Com o fim do lixão, os catadores se organizaram em associações. Fortalecidos, hoje se distribuem em duas cooperativas, remuneradas pela Companhia de Serviços Urbanos de Natal (Urbana) para realizar os serviços de coleta, transporte e destino final dos resíduos recicláveis.
“Decidimos contratar os catadores por entender a sua importância para o meio ambiente. Estamos fazendo nossa parte, conforme prevê a Política Nacional de Resíduos Sólidos e esperamos que todos os municípios façam o mesmo”, disse João Bastos, presidente da Urbana.
A inserção social dos catadores foi esquecida por muitas gestões da Urbana. Diante desta problemática a gerência técnica do meio ambiente da Urbana, formulou e propôs o decreto da Coleta Seletiva Solidária em Natal, o que foi acatado pela prefeita Micarla de Sousa.
O Decreto Municipal nº 9.615/2012 foi publicado no Diário Oficial do Município do dia 03 de fevereiro deste ano e estabelece a obrigatoriedade de coleta seletiva em todos os órgãos da administração direta e indireta municipal. O decreto municipal segue o modelo adotado pelo Governo Federal (5.940/2006) com as devidas adequações às realidades locais.
Estas iniciativas tiveram início em junho de 2010, fruto de uma gestão inovadora na Urbana, onde os catadores passaram a ser visualizados com a devida importância. Neste período diversos eventos nacionais e locais possibilitaram a contratação das cooperativas para realizarem serviços profissionais aos municípios brasileiros.
Em 2010 o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou a Lei Federal nº 12.305/2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), elevando os catadores para um patamar de destaque, no que diz respeito à destinação ambientalmente correta dos resíduos sólidos recicláveis.
Para Severino Lima Júnior, representante do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) as conquistas estão se concretizando em Natal. “O presidente Lula foi muito importante para valorização do catador. Somos gratos a ele”, destacou Severino Júnior. “Nós do MNCR estamos muito satisfeitos em ver que a gestão municipal do Natal está implementando a PNRS, inclusive contratando os catadores.”
A PNRS surge como um instrumento legal que complementa a Política Nacional de Saneamento Básico (PNSB), instituída conforme a Lei Federal nº 11.445/2007. Foi a PNSB que possibilitou a contratação dos catadores para realização da coleta seletiva, cumprindo assim uma das etapas do saneamento básico que é o manejo dos resíduos sólidos urbanos.
A PNSB prevê a contratação das cooperativas com dispensa de licitação, tendo como base o estado de necessidade dos catadores e promovendo a inserção socioeconómica dos profissionais da coleta seletiva e ações de preservação do meio ambiente.

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Da Revolução Industrial ao aquecimento global

Por Heverthon Rocha

Antes da industrialização, na idade média, a vida das pessoas era bem mais simplificada, mesmo não havendo qualidade de vida, vivia-se com pouca ou nenhuma pressão externa provenientes de seus empregadores. Não havia cobranças de horários, compromissos financeiros, acadêmicos, etc. Mesmo o trabalho sendo pesado, existia tranquilidade. Investia-se muito tempo na família.

Com a valorização da família, o lazer era inevitável, a carga horária de trabalho era muito inferior a que a população é submetida nos dias de hoje. Naquela época se trabalhava algo entorno de duas a três horas por dia. Atualmente um trabalhador assalariado com carteira assinada ou não, trabalha algo entre seis e oito horas por dia.

“Durante a idade média, o trabalho era duro e rural, e adaptado ao clima, às festas e aos repousos ditados pela família e religião, onde havia inúmeros dias santos. Trabalhava-se em média de 700 a 1000 horas por ano. Nesta sociedade predominavam os valores de vida comunitária, onde adultos e crianças partilhavam de atividades comuns, onde o trabalho e o lúdico tinham o mesmo grau de importância.” (MALACRIDA & MACHADO, 2008)

Os processos de industrialização tiveram início muito remotamente. Já no período de 1760 a 1850, a industrialização, ou seja, a Primeira Revolução Industrial e era restrita a Inglaterra, então conhecida como a “oficina do mundo”. Naquela época, foi proposta a produção sistemática de bens de consumo, em especial os têxteis e a energia a vapor.

Não demorou muito, e a partir de 1860, a revolução estava presente por diversas partes da Europa, Ásia e América do Norte e continuou sua expansão até 1900. Esta fase ficou conhecida como Segunda Revolução Industrial. Dentre os países que aderiram a industrialização figuravam os Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, Bélgica, Japão e Rússia. Com o avanço das revoluções industriais, cresceu então a concorrência e a necessidade de novas formas de energia, surgindo as primeiras hidroelétricas e avanços nas áreas químicas e aço. Neste mesmo período também surgiram termoelétricas, pioneiras na emissão de gases poluentes de origem antrópica, que funcionavam a base de petróleo, lançando toneladas de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera.

O que impulsionou ainda mais a industrialização do futuro, foi invenção de George Stephenson (1781-1848) que em 1814, apresentou ao público o que seria a responsável pela expansão mundial, a máquina que possibilitou levar e trazer bens de consumo e matérias primas por tudo mundo ocidental.

A construção da locomotiva facilitou a comercialização e distribuição da produção, tornando estes processos mais eficientes. Em 1825 a “Locomotion” inventada por Stephenson tracionou um conjunto completo de composição ferroviária, fazendo o percurso de 15 quilômetros entre Stockton e Darlington, na Inglaterra.
Deste período até os dias de atuais, os chamados polos industriais somam-se aos milhares espalhados por todo mundo. São indústrias locais, regionais e até multinacionais que mantêm o foco na produção e comercialização de bens de consumo.

As indústrias estão preferencialmente preocupadas com lucros e pouco com o meio ambiente. O foco é no crescimento econômico, no ganho de capital. Esta ideia de crescimento econômico foi bastante impulsionada após o domínio do homem sobre os recursos naturais, que sofreram e ainda sofrem uma redução de disponibilidade de alimentar.

Grandes áreas de terras são devastadas para alimentar o capitalismo selvagem que mantém o sistema econômico funcionando por meio de atividades industriais, fazendo e distribuindo produtos que se tornam obsoletos em pouco tempo, alguns em até seis meses.

Esta obsolescência dos produtos aumenta a quantidade de resíduos descartados no meio ambiente e reduz a vida útil de aterros controlados ou sanitários, ao passo que pode aumentar a quantidade de lixões. Também exigem mais extração de matérias primas, causando mais desmatamento de florestas, destruição de montanhas para extração de minérios e consequentemente a poluição do ar, solo, mares, rios e lagos.

Atualmente, a produção encontra-se, quase em sua totalidade, automatizada. A partir do ano 1900, surgiram os processos de produção em série, iniciando uma verdadeira e danosa explosão de consumo em massa.

Este consumismo exagerado contou com uma grande aliada, a comunicação. Foi um período de grandes avanços nas comunicações, o que facilitou a divulgação de produtos e aumentou ainda mais o público consumidor.

A partir deste ponto, a industrialização agregou novos conhecimentos e tecnologias, avançando nas áreas da eletrônica, química, engenharia genética e a robótica. É importante lembrar que o marco inicial deste processo de desenvolvimento capitalista, deu-se juntamente com a revolução industrial, deixando de lado os processos de produção artesanal, menos agressivos ao meio ambiente e menos lucrativos do ponto de vista econômico da época.

Quem teve a oportunidade de ver o clássico filme “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin, percebe que a industrialização acelerou os processos de produção a níveis quase frenéticos. As pessoas – operários – tornaram-se partes fundamentais deste processo sistemático de produção.

A qualidade de vida está comprometida pela rotina estressante e pouco remunerada. O lazer já não fazia mais parte da vida dos operários que se sacrificam nas fábricas. O que ganhavam sequer dava para sustentar suas famílias. O que realmente alimentavam era o sistema de produção, venda e compra dos bens de consumo.

As doenças mais frequentes estavam relacionadas aos esforços repetitivos e ao trabalho em uma única etapa da produção. Ou seja, cada operário era responsável por um único processo na linha de montagem. Esta doença foi diagnosticada décadas depois como “LER” (Lesão por Esforço Repetitivo).

A competitividade por uma vaga de trabalho só aumentou com a Revolução Industrial, e os operários se submetiam a baixos salários. Aqueles que não conseguiam emprego – maioria da população – passavam fome, sobreviviam e roubavam pelas ruas em meio a uma burguesia constituída por poucos cidadãos.

Diante deste cenário, surgiram os movimentos sindicais, que cobravam melhores condições de trabalho e salários mais justos. Pelas ruas os usuários de drogas tornavam-se o retrato da dor e da miséria. As cadeias lotadas indicavam o aumento da criminalidade. Nas celas, sindicalistas eram colocados juntamente com traficantes e assassinos. Os problemas sociais eram latentes e incomodavam os pioneiros das lutas sociais.

Antes dos processos de produção em série, ou da Revolução Industrial, a população vivia da energia e dos produtos ofertados pela própria natureza. Caçavam somente o que consumiam com suas famílias, sem armazenamento. Colhiam o que plantavam em pequena escala, e não promoviam grandes impactos ao meio ambiente.

Com a industrialização e a produção em série, os impactos provocados na natureza ganharam grandes proporções. A emissão de gases do efeito estufa (GEEs) foi acelerada com a exploração de combustíveis fosseis e com o crescente desmatamento para produção agrícola e implantação de novas indústrias.

O planeta passou a não mais suportar as frequentes agressões e a exploração descontrolada dos recursos naturais. A derrubada de florestas acelerou o aquecimento global, pois representam um fundamental papel no ciclo de renovação do oxigênio da atmosfera, expondo ao risco bilhões de pessoas por todo o mundo.

Os seres humanos hoje vivem numa sociedade capitalista. Adotaram o consumismo como meta de status social. No momento de comprar, a população não leva em consideração o ciclo de vida do produto, o quanto de matéria prima foi utilizada, nem tão pouco sua origem e se os custos humanos e ambientais foram inseridos na cadeia produtiva.

É urgente que medidas sejam adotadas para frear o consumismo. Uma saída é trabalhar a sensibilidade e consciência da população por meio da educação ambiental. O cidadão deve ser orientado a respeito dos processos de produção, distribuição e consumo. Talvez ainda seja tarde demais para reverter a situação. É possível que ainda haja tempo para salvar as futuras gerações do egoísmo de seus antecessores.